Relação entre psicopatia, sensibilidade ética, adição à internet e ciberabuso no namoro numa amostra de estudantes universitários

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É essencial estudar a psicopatia fora daquelas que são consideradas as populaçõesalvo (e.g. criminosos), desviando a atenção para as populações não-clínicas, como por exemplo os estudantes universitários, de forma a poder aumentar o conhecimento sobre as suas diferentes causas, manifestações e consequências (Persson & Lillienfeld, 2019; Tsang, Salekin, Coffey, & Cox, 2017). Esta pode ser considerada uma população de destaque uma vez que, segundo Cleckley (1988), o "psicopata bem-sucedido" pode utilizar a formação académica como um auxílio no avanço para um estatuto mais elevado, alcançando, desta forma, posições de maior poder (Salekin, Trobst, & Krioukova, 2001). A psicopatia pode ser considerada uma doença mental, porém, não englobar os sintomas presentes nas psicoses, o que confere ao psicopata uma normalidade aparente (Henriques, 2009). Esta pode também ser caracterizada como uma estrutura da personalidade que se desvia da norma, dada a componente antissocial que abarca (Bishopp & Hare, 2008). Indivíduos com traços psicopáticos possuem características como ausência de culpa e remorso, insensibilidade, mentira patológica e comportamento desviante e antissocial pautado por incumprimento de regras, tanto sociais como legais (Cleckley, 1988; Hare, 2003). Adicionalmente, existe uma falta de consciência social, sendo que estes indivíduos não se inibem perante agressões e têm tendência a reagir de forma impulsiva e com raiva (Patrick, 2018). Podendo considerar-se que os estudantes universitários estão já inseridos no nível pósconvencional do juízo moral, no qual as pessoas reconhecem conflitos entre os padrões morais já instalados e fazem os seus próprios julgamentos com base nos princípios de correção, imparcialidade e justiça (Kohlberg, 1974; Papalia, Olds, & Feldman, 2006), é expectável que estes façam uso dos seus valores morais, fazendo os seus próprios juízos tendo por base princípios que permitem a harmonia na sociedade. Neste sentido, torna-se imperativo perceber a influência dos traços de psicopatia nas decisões morais, nomeadamente ao nível da sensibilidade ética. A sensibilidade ética caracteriza-se pela identificação de aspetos éticos presentes numa situação com o objetivo de visualizar diferentes alternativas de resposta perante essa mesma situação (Tirri & Nokelainen, 2011). Este conceito integra em si o cuidado na resposta, a capacidade em identificar a dimensão ética do cuidado e empatia pelo bem-estar do outro e ainda uma componente de cuidado moral (Weaver, 2007), interpretando de que forma a situação poderá afetar o outro (Tirri & Nokelainen, 2011). Dado que alguns destes conceitos se encontram deficitários em indivíduos com traços psicopáticos, poderá duvidar-se da capacidade destes possuírem sensibilidade ética. Segundo Paim (2008), a psicopatia apresenta uma completa ausência de sensibilidade moral observando-se uma inexistência da capacidade para sentir emoções delicadas, como por exemplo sentir preocupação com o outro. Ademais, indivíduos com traços psicopáticos não veem a moralidade como parte integrante da sua personalidade e identidade (Glenn, Koleva, Iyer, Graham, & Ditto, 2010), não se envolvendo, por isso, em sistemas que os motivem a ter comportamentos adequados (Cima, Tonnaer, & Hauser, 2010). A psicopatia mostra ser ainda um fator importante no que diz respeito à Internet. Dado que os estudantes universitários são parte integrante da Geração Z (nativos digitais), estão altamente envolvidos na Internet. É necessário ter em atenção que o tempo passado online pode ser produtivo, no entanto, um envolvimento excessivo pode desencadear sérios problemas (Munno et al., 2017). A adição à Internet é caracterizada por preocupações, impulsos ou comportamentos excessivos relativos ao uso da mesma, os quais podem conduzir a problemas ou a um sofrimento exacerbado (Weinstein, Dorani, Elhadif, Bukovza, & Yarmulnik, 2015; Weinstein & Lejoyeux, 2010; Young, 1998). É possível observar que a psicopatia está positivamente associada à adição à Internet (Sindermann, Sariyska, Lachmann, Brand, & Montag, 2018), sendo que indivíduos com traços psicopáticos se mostram mais predispostos a prolongar o seu comportamento antissocial online, não receando ser punidos. Adicionalmente, as características da psicopatia mostram-se intimamente ligadas a uma série de riscos de adição (e.g. álcool e drogas), sendo visível que a adição sem substâncias (neste caso, à Internet), compartilha muitas das características das adições com substâncias (American Psychological Association, 2014), hipotetizando-se desta forma que o risco de associação da psicopatia poderá ser equivalente. Com a presença de um grande número de utilizadores da Internet, “nasceu” uma nova forma de abuso no namoro – o ciberabuso. O ciberabuso no namoro inclui ameaças, insultos, humilhação, comportamentos excessivos de ciúme que podem causar ansiedade ou stresse no companheiro/a (Machimbarrena et al., 2018; Zweig, Lachman, Yahner, & Dank, 2013) e ainda o bloqueio ou exclusão do parceiro da sua lista de amigos próximos (Borrajo, GámezGuadix, & Calvete, 2015). É reportado que quanto maior o tempo de permanência online, maior a probabilidade de um indivíduo se poder tornar vítima deste abuso (Van Ouytsel, Ponnet, & Walrave, 2016). Dada a preponderância dos indivíduos com traços psicopáticos no envolvimento em comportamentos agressivos no geral e em particular com o parceiro, a psicopatia demonstra ter um papel fulcral no ciberabuso no namoro. Segundo resultados de Bui e Pasalich (2018) traços psicopáticos foram associados a maiores níveis de perpetração de abuso no namoro tanto face-a-face como online. Perante o exposto, a presente dissertação está dividida em dois estudos: “Relação entre traços psicopáticos e sensibilidade ética numa amostra de estudantes universitários” que objetiva perceber se a presença de sensibilidade ética tem influência na manifestação de traços psicopáticos, analisando as associações entre os traços psicopáticos e a sensibilidade ética e verificando o efeito preditor da sensibilidade ética na presença de traços psicopáticos e “Traços psicopáticos e ciberabuso no namoro: efeito mediador da adição à Internet numa amostra de estudantes universitários” que pretende analisar o papel dos traços psicopáticos na adição à Internet e no ciberabuso no namoro, analisar as associações entre todas as variáveis em estudo e testar o efeito mediador da adição à Internet entre os traços psicopáticos e o ciberabuso no namoro, ambos numa amostra de estudantes universitários. O interesse pela temática prende-se pela relevância que as variáveis em estudo apresentam dado que o estudo da psicopatia em população não-clínica tem vindo a aumentar. Assim, torna-se pertinente perceber a associação da mesma com diferentes variáveis, de modo a perceber como esta se comporta e de que forma é que determinados programas de prevenção ou intervenção podem vir a ser estruturados no futuro. Além disso, o tema mostra-se inovador, dada a escassez de investigação que reporte o papel da psicopatia na sensibilidade ética e no ciberabuso no namoro. Contribui ainda para o aumento do conhecimento sobre a associação entre psicopatia e adição à Internet, bem como sobre o papel protetor ou fatores de risco que algumas das variáveis podem assumir no desenvolvimento e/ou reforço de traços psicopáticos.
Descrição
Dissertação apresentada para a obtenção do Grau de Mestre em Psicologia Clínica pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro
Palavras-chave
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